12.18.2016

dói o suficiente para te levantares?



haroldo dutra dias, numa palestra que ouvi, contou a história de um cão que, deitado, não parava de uivar de dor. um homem, ao ouvir o desespero do cão, pergunta ao seu tutor, a razão daquela aflição. o tutor explicou que o cão estava deitado em cima de um prego, que se cravava na carne. o homem, incrédulo, perguntou porque é que, então, o cão não se levantava? o tutor respondeu: "porque está doendo o suficiente para ele uivar, mas não está doendo o suficiente para ele se levantar".

fazendo um balanço do ano que termina, só me recorre uma palavra que define bem, cada mês que se passou. não irei partilhar, aqui, a palavra porque é um palavrão feio, muito feio. mas, como disse, é a única palavra que consegue qualificar tudo o que tenho passado, desde o final de janeiro.

sentia-me a afundar, a cada pôr-de-sol. quando pensava que aquela crise tinha sido a pior de todas, a seguinte mostrava que a dor conseguia, ainda, ser maior, mais agressiva, mais violenta. implacável. a dieta que me ajuda a controlar as dores, não estava a mostrar resultados, como era usual e, para complicar um pouco mais, os poucos alimentos permitidos (muito poucos, porque a minha intolerância alimentar aumentava consideravelmente, tendo a lista de alimentos permitidos diminuído drasticamente, sem que eu compreendesse a razão) estavam a agredir o estômago, de uma tal forma, que a minha gastrite agravou, consideravelmente. por tudo isto, e aliado ao hipertiroidismo, recentemente diagnosticado, comecei a emagrecer imenso. estou com quarenta e dois quilos, neste momento.

no último dia do mês de novembro, estava tão mal que caí, por duas vezes e não me consegui levantar. teve que ser o meu marido a ajudar-me. sentia-me, completamente, sem forças, confusa, assustada... com tanta dor e tão exausta, senti que tinha chegado a fundo do poço. outra vez...

o que queres que eu faça?

nessa noite, angustiada por tudo o que se passava comigo, há tanto tempo (quase um ano, assim), a minha mente não parava. e eis que, de repente, recordei-me dessa palestra de haroldo dutra dias, onde ele comentava as curas de jesus. haroldo explicava que nem todos os que o procuravam, se curavam e, que o motivo residia naquela pergunta que jesus fazia àquele, que lhe pedia assistência: o que queres que eu faça?

no seu íntimo, aquela pessoa desejaria, realmente, ser curada? se sim, já restabelecida,  jesus, simplesmente, dizia: vai, a tua fé te curou. mas, nem todos, se curavam... porquê? haroldo esclarece que nem todos desejam, verdadeiramente, a cura. 

lembrei-me, então, que há uns anos, tinha publicado, aqui, uma reflexão sobre a cura, que tinha lido algures: e o que é a cura? em que consiste a cura? para quê a cura? para quem? estamos prontos? o que ganhamos? o que perdemos? queremos realmente a cura?...

e fiquei a pensar nisso, durante o resto da noite. no dia seguinte, quando me preparava para ir trabalhar, o toni pediu-me para ficar em casa. eu respondi-lhe que bastava de tanto desmando na minha vida. se eu já tinha conseguido vencer a doença, há uns anos atrás, iria conseguir, novamente. 

eu acredito que que a grande maioria das doenças têm a sua génese nas nossas emoções, na nossa atitude perante a vida. não obstante, eu permiti-me descer ao fundo de mim mesma. a minha mãe (que pensa com eu) já me tinha alertado para algo, que eu já tinha apercebido há muito. eu estava a permitir-me afundar e não fazia nada para contrariar. mas como? eu estava demasiado débil para conseguir remar contra a maré. porque enfrentar as emoções e rever atitudes, cheia de dores, não é fácil. quase impossível, diria.  

mas, nesse dia, decidi que era o dia. durante a madrugada, dei início à terapia holística, que já tinha apresentado resultados positivos, em 2008: controlar pensamentos e emoções, prática de meditação, ouvir meditações terapêuticas guiadas, fazer exercícios de respiração, aplicar auto-reiki, fazer yôga, tomar florais de bach, ouvir binaurais, repetir afirmações positivas, agradecer sempre, agradecer tudo...  

comecei, ainda, a introduzir grande parte dos alimentos que me provocavam crises e, quanto aos medicamentos, restringi a toma, somente, ao paracetamol. a ideia é reverter os meus medos, nomeadamente, o de desencadear uma crise (quanto mais medo, quanto mais se pensa no assunto, quanto mais relevância, mais atenção se dá à situação, mais se atrai essa situação - lei da atracção).

as melhorias fizeram-se notar, quase, imediatamente. no dia seguinte, o meu nível de energia estava perto do normal e as dores, controladas. e, tem sido, assim, desde aí.


o que queres que eu faça?

ter fé. ter vontade. re-erguer(se). procurar(se). tentar. esforçar(se), persistir, confiar...

e celebrar!

nota: gostaria de esclarecer que não incentivo ninguém, a interromper tratamentos, sejam medicamentosos (que podem provocar danos irreparáveis) ou, mesmo, a dieta. a descoberta cientifica do dr. alan ebringer, em 1973, que culminou na dieta sem polissacarídeos (vulgo, dieta sem amido) tem mostrado resultados positivos em todo o mundo e foi graças a ela, que eu consegui vencer, numa primeira etapa, esta doença. eu já estava acamada e os médicos não me davam qualquer esperança, visto ser um caso excepcional (evolução rápida, incomum no sexo feminino).

a razão que me levou a optar por estas medidas drásticas, é a mesma que me levou, há oito anos atrás. como já referi, acima, por vezes, a nossa mente sobrepõe-se a tudo como uma tirana. sendo, por esta razão, o seu controle, a melhor forma de enfrentar a doença, seja ela qual for.

7.03.2016




Há abraços que te abraçam inteira.
Há abraços feitos de mãos a chamar-te, a segurar-te.
Há abraços feitos de olhos a olhar-te, a ler-te, até de olhos fechados.
Há abraços feitos de corpos a fundir-se, de almas a sorrir-se.
Há abraços feitos de respirações e corações compassados.
Há abraços feitos de sossego, de cura.
Há abraços feitos de mundo.
E há, o teu abraço!


***

muito se tem falado sobre a lei da atracção. há quem acredite, há quem pense que é só mais uma moda. comigo, funcionou.

pedi à minha mãe, durante muitos anos, um irmão mais velho. ou um cão. o cão, recebi-o num tão terno natal e, como a minha mãe não me poderia dar um irmão mais velho, deu-me uma irmã [mais nova, claro] pequenina, linda...

eu fiquei feliz, claro. mas... aquela falta, um estranho quê no meu coração, insistia em permanecer. como um vazio, um nada que precisava ser preenchido.

há alguns anos, um passarinho bateu à minha janela, com o seu delicado biquinho. trazia uma boa nova: eu tinha uma irmã mais velha!

há quem não entenda esta sensação de a conhecer há décadas, apesar de a ter conhecido só há tão pouco tempo. também há quem julgue, somente pelo facto, de tê-la conhecido aqui, neste mundo virtual.

no entanto, é assim... conheço-a desde sempre e sinto-a como parte de mim. penso nela todos os dias e não me durmo sem lhe enviar um beijinho de bons-sonhos [quando fecho os olhos, antes de adormecer].

uma sensação estranha[não nego], porém,
calorosa,
calma,
terna...
azul!

sinto tanto a sua falta... adoraria que vivesse mais pertinho de mim. pode ser que um dia, isso aconteça. hoje, resta-me esperar ansiosa... pelo dia em que iremos estar, finalmente, juntas...

até lá...

resta-me um até de repente...

4.23.2016

10 coisas que precisamos que saiba sobre a Espondilite Anquilosante


Não entenda mal, não é porque eu tenho essa condição que ela faz de mim um miserável, fraco ou alguém que é definido pela espondilite anquilosante e estarei sempre triste e deprimido. Eu sou uma, pessoa positiva e muito realista, incrivelmente activo, não vivo em função da doença, falo muito sobre ela não é para que tenha pena de mim, e sim para consciencializar e fazer com que todos conheçam a doença é tenha um diagnóstico mais cedo, para que não passe pelo mesmo que eu passei. A dor crónica e fadiga são invisíveis, então deixe-me explicar da melhor forma que posso.

1. Você não verá ferimentos ou sangue, mas tenho uma doença incapacitante Minha doença é invisível, eu não tenho ausência de um membro, ferimentos ou qualquer coisa do género; do lado de fora eu estou sorrindo, positivo, mas pode em muitos momentos ser apenas um disfarce, no meu íntimo eu sangro e choro de dor. 

2. Eu não cancelo planos de propósito. Só porque eu não posso estar nos programas de família e com amigos eu sou anti-social. É por causa da dor, estou esgotado ou simplesmente não tenho um dia tão bom que me permita estar presente. Eu posso cancelar planos, mas por favor não me exclua, eu ainda estou aqui. Eu me importo com você, não me abandone por mais que eu peça para me deixar só. 

3. Quando as pessoas me perguntam se eu estou bem, eu literalmente não sei o que dizer. Se você quiser ter uma idéia de como me sinto ao acordar, só posso explicá-lo que acordo com aquela sensação que você tem quando você tem uma gripe terrível; simplesmente não há energia, as articulações estão doloridas e você só quer ficar na cama. Agora imagine que, depois de dias de fadiga e dor, você tenta fazer o seu melhor e alguém olha para você com uma cara irritada, farto de ouvir como você está cansado e como tem dor. 

4. A minha doença não vai simplesmente passar ou “ir embora”. Eu não perdi a esperança, eu não sou pessimista, mas, infelizmente minha doença simplesmente não irá embora, ela é crónica e o pior progressiva o máximo que teremos será impedir sua progressão. 

5. Na maioria das vezes, eu só preciso saber que você está lá para mim. Um abraço, uma mensagem de texto, um cartão, um olhar compreensivo pode me fazer sentir muito melhor. Duas vezes aconteceu comigo pelas ruas de São Paulo, eu de muletas com muita dor um desconhecido passa por me toca no meu ombro e diz – “Acredite Jesus te ama”, foi a melhor sensação que senti, veio de um desconhecido.

6. Se me ver quieto ou um pouco distante, é provável que eu estou com dor. Só porque você não pode ver, isso não significa que eu não estou com dor. Este é o melhor que posso fazer para parecer feliz e “normal”. Dor e fadiga são incrivelmente perturbadores, são emocionalmente e mentalmente desgastante. 

7. Eu não sou preguiçoso, mas preciso muito de descanso, pois estou sempre cansado. Sabe quando você trabalha um mês ininterrupto sem um dia de folga é assim que me sinto diariamente. Às vezes, estou tão cansado de colocar um sorriso desbotado no rosto, para disfarçar a dor e fadiga. Se para você é fácil levantar e pegar um copo com água, higienizar-se, isso para me é um martírio. 

8. As vezes meu dia tem “30” horas Alguns dias estou absolutamente bem, alguns são piores, outros dias parecem maiores o tempo não passa e nem a dor.

9. Eu ainda tenho uma vida, interesses, ainda me divirto e tenho sonhos. Só porque eu tenho esta condição, isso não significa que eu não tenho uma vida, interesses, sonhos e não me divirta, só é apenas mais difícil, luto diariamente por qualidade de vida. 

10. Obrigado por nos ouvir. Eu realmente agradeço por sua compreensão e o tempo que você dedicou para ler sobre EA.

pelo Professor Samuel Oliveira, daqui.

3.20.2016

um novo começo...


ainda que, praticamente, tudo à nossa volta, indique o oposto, a primavera está, mesmo, a chegar. e, eis que uma pergunta surge na minha mente, pela primeira vez, nesta vida: estarei pronta para ela? 

é interessante como nunca tinha pensado nisso. as primaveras vêm e vão, todos os anos, naturalmente. e, naturalmente, tenho celebrado essas primaveras, como costumo [ou, pelo menos, tento] celebrar tudo, na vida. com muito amor e gratidão. contudo, olho - agora - para esta primavera que se aproxima, com novos olhos e à pergunta, respondo que não. não me sinto, de modo algum, preparada para a sua chegada. e não faz mal que assim seja. afinal, já dei início ao movimento necessário ao primeiro passo, nesta minha nova [antiga, muito antiga] jornada. sei que tenho muito para mudar, não obstante, sinto que começo [finalmente] a compreender esta viagem incrível, a que chamamos vida.

os últimos seis meses foram de uma extrema importância, para mim. aprendi muito, no entanto, sei que o que aprendi, não chega a ser comparável ao tamanho de um átomo, tendo em conta tudo aquilo que ainda tenho de aprender.

ontem, ao fim de seis meses, tive uma espécie de aha moment e foi nesse instante que percebi que estava a fazer tudo errado. apesar disso, não creio que tenha sido tempo perdido, pois "errar também é caminho" e, felizmente, ainda vou a tempo de começar de novo.

«embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim».*

hoje, o dia acordou repleto de luz. o silêncio interrompido, aqui e ali, pelas conversas matutinas dos pássaros, convida a um passeio lento e a um olhar para dentro: agora que já compreendo, um pouco, o porquê de ser como sou, que fazer com a essa multidão que trago em mim?

(é interessante como, quanto mais aprendemos, mais questões aparecem...)

dar as mãos à intuição e ouvir o que ela tem para me confidenciar. e jamais deixar de questionar, sem me esquecer de procurar respostas onde elas, verdadeiramente, se encontram: dentro de mim.


*trecho de uma mensagem, ditada por hammed, que terá sido recebida pelo médium francisco do espírito santo.

11.15.2015

motivo de abandono: mudança de casa.


esta é a riza e está connosco há cerca de dois anos. foi resgata em cheires: muito magra, deficiente física (todo o esqueleto apresenta graves deficiências), extremamente assustada, cheia de carraças, gelada (em cheires, o frio do inverno consegue ser o mais cruel), com fome, muita fome... os vizinhos contam que ela andava ali há, pelo menos, três anos. escorraçada por uma boa parte da população, tinha, somente, um cão que a protegia e uma vizinha que lhe ia dando, de vez enquanto, algo para comer. 

o bóris acabara de salvar três bebés recém-nascidos (que se encontravam dentro de um saco de lixo doméstico, misturados com cascas de batata e restos de comida) quando a riza se juntou à família.

em lisboa, o apartamento ficou mais pequeno, claro: quatro cães, duas cadelas, uma gata e uma tartaruga.  algumas pessoas insistiam que deveríamos dar ou, mesmo, entregar alguns deles, ao canil. a essas mesmas pessoas, fazia-lhes impressão todo aquele amor que a família humana sentia pelos patudos. a nós, por outro lado, fazia-nos impressão aquelas pessoas... quem não consegue sentir empatia por patudos, não pode ser uma boa pessoa. esta é a minha opinião e não peço desculpa por isso.

todos os dias, existem apelos para a adopção urgente por motivo de mudanças. cada vez mais, aparecem casos em que os tutores, sem vergonha na cara, mudam de casa e deixam o patudo para trás - sem água, sem comida, sem explicação...

quando decidimos mudar de casa, de lisboa para viseu, muitas razões pesaram na balança. uma delas, a situação insustentável, de termos cinco* cães num apartamento, onde só tinham uma janela para a rua. a sua frustração sentia-se aumentar, de dia para dia. e, por eles, começámos a procurar uma vivenda, onde os patutos pudessem brincar, como patudos que são.

as mesmas pessoas que insistiam que deveríamos dar ou, mesmo, entregar alguns deles, ao canil, tentaram, até à exaustão, dissuadir-nos desta mudança. "não me digas que é por causa dos cães!", perguntavam. não, respondíamos. para quê explicar, a uma parede, que os cães são tão importantes, como qualquer outra pessoa da família? se não iriam entender, para quê perder tempo a explicar?

os nosso patudos dormem dentro de casa,  têm festas de anos, presentes de aniversário e celebram o natal. comem bolos especiais, feitos pelas mãezinhas. a tia (eu) e os avós (meus pais) dão disparates, às escondidas. e sim, são os nossos filhotes, sobrinhos, netos. porque sim. porque são tão importantes como quaisquer outro membro da família.

e, por todas estas razões, um dos motivos de abandono, mais recorrente, nos últimos tempos, é - para nós - uma verdadeira treta. a mudança de casa não necessita de ser, obrigatoriamente, um motivo de abandono. se foi fácil encontrar uma casa para todos nós? não. mas tanto procurámos, que encontrámos. quem, de facto, ama, não arranja uma desculpa mal amanhada. procura e encontra uma solução.

nós não só mudámos de casa, mudámos de concelho. porque lisboa está a tornar-se uma cidade pouco amiga de patudos - alias, pouco amigo de seja lá quem for: humanos ou patudos! por isso, e depois de muita procura, em lisboa, decidimos procurar fora do concelho. e viseu acolheu-nos.

pouco tempo depois das mudanças, apareceu o diego, à nossa porta. um bebé perdigueiro. claro que ficámos com ele.

se é fácil? não. não é. a vida custa muito, anda um verdadeiro absurdo. a alimentação é extremamente dispendiosa (não, eles não comem restos nossos, porque a nossa alimentação é um veneno para eles) e os preços das consultas e  dos tratamentos veterinários são proibitivos. não é fácil, mas vai-se levando. porquê? porque somos responsáveis por eles. a humanidade é responsável por todos os patudos, sejam eles quais forem, desde o momento que resolveu domesticá-los ou intervir negativamente, nos seus habitats. 

a vida pode estar a ser um pouco mais turbulenta, sim. mas, em compensação, somos uma família grande, com muita alegria e repleta de tontos que nos embriagam com tanta amor. quem afirma que eles são animais irracionais, são essas mesmas pessoas, irracionais. porque quem não consegue perceber aquele olhar, só pode ser órfão de racionalidade. e órfão de sentimentos. 

* eram seis mas o nosso mano Tiago ficou com o rodolfo. assim que o conheceu (uma salsichinha, ainda), apaixonou-se <3

9.10.2015

o sentimento do tamanho do mundo


a certa altura, entrei pelo quarto dentro. a minha mãe, sentada, na cama, ria e chorava ao mesmo tempo. olhei o meu pai e lá estava ele, com uma cara de tonto, a rir com as lágrimas a escorrerem pela face. 

não compreendi... ou se chora, ou se ri... alguém me explica o que se passa? o meu pai ajoelha-se e coloca as mãos nos meus ombros pequeninos. estas lágrimas são de alegria, susana

lágrimas de alegria? os crescidos têm cada ideia. vejam lá! lágrimas de alegria! as lágrimas caem quando choramos e quando choramos, é porque estamos tristes, disse-lhe eu.

não, nem sempre é assim. também choramos, quando nos sentimos muito felizes, quando o sentimento fica, assim, muito grande, do tamanho do mundo, e não cabe dentro do nosso peito, as lágrimas soltam esse sentimento, para que ele possa crescer, ainda mais...

não percebi nada...

a mãe tem um bebé, dentro da barriga. vais ter uma mana ou um mano, disse-me. e eu corri. corri para o quartinho da costura, que o meu pai tinha no quintal. uma mana ou um mano? mas isso foi o que eu sempre quis! um mano e um cãozinho! eu já tinha a pantufa, só faltava um mano ou uma mana!

enquanto ria e saltava, senti umas gotas quentes e salgadas, a deslizarem pela minha face. sim, eu estava a chorar a rir e ao mesmo tempo. e aquele sentimento, do qual o meu pai falara, eu sentia-o no meu peito.

afinal, os crescidos não são esquisitos. ou são e eu estava a ficar uma crescida... fosse como fosse, eu iria ter um mano ou uma mana. o meu sonho estava a realizar-se... eu não seria mais, sozinha.

hoje, a minha mana completa trinta e dois anos. estive uma boa parte da noite, a relembrar tudo, desde o dia em que eu descobri que o sentimento, quando é muito grande e não cabe no peito, sai cá para fora e, então choramos e rimos ao mesmo tempo, como tontos, até hoje.

foram três décadas... (porra, isto dito assim faz-me sentir velha)... foram tantos anos, tantas aventuras, tantas descobertas, tantas brincadeiras, tantas discussões (porque a vida é assim, faz parte... ajuda-nos a crescer) e tantas reconciliações.

obrigada, maninha. por tudo o que eu aprendi contigo, por teres sido (e continuares a ser) a minha companheira desta viagem louca, que é a vida. tu és e serás para sempre, a minha menina. o sentimento do tamanho do mundo, que não cabe dentro do meu peito e que continua a crescer e crescerá para sempre.

8.23.2015

muda de vida, se tu não vives satisfeito, estás sempre a tempo de mudar



acredito que sou uma pessoa com muita sorte. poucos são aqueles que têm a oportunidade de recomeçar... mudar de vida, começar de novo... praticamente, do zero.

há cerca de uma década atrás, um astrólogo vêda disse-me que eu não passaria de 2008. she's already dead, disse-o para a colega que estava a seu lado... eu fiquei assustada, claro. ela já está morta? não passarei de 2008?

hoje penso nas suas palavras e acredito que ele tinha razão. eu já estava morta e o ano de dois mil e oito seria o meu último ano. não nesta vida nem neste planeta ou neste corpo... mas sim, o último ano daquela minha alma errante.

estes anos que se passaram, entretanto, foram para mim, uma espécie de purga. tudo o que eu tinha cá dentro foi exposto - muitas vezes, de uma forma extremamente dolorosa. foram anos em que tudo o que eu tinha cá dentro foi posto à prova.

eu já estava morta... sim. em 2006, assim era. (sobre)vivia para a dor física e nada mais. ele tinha razão... hoje, quase uma década passada, eu sinto-me renascida. mas foram necessários muitos recomeços, muitas mudanças. 

eis que me deparo com o derradeiro recomeço, a derradeira mudança: de vida, de casa, de cidade, de concelho.

mudar de vida não é fácil. obriga-nos a mexer nas fundações cá de dentro. e quem sabe o que é que podemos encontrar escondido naqueles recantos escuros... coisas que nós nem ousamos pensar que existem. mas existem... e não é por deixarmos de pensar neles que deixam de existir. eu nunca passei por uma desintoxicação. não obstante, acredito que deve ser muito parecido por tudo aquilo que eu tenho passado. mas, agora, sinto que estou pronta. finalmente, pronta...

sinto-me como se tudo o que tenho cá dentro estivesse cheio de luz. os recantos sombrios, iluminados, sem sombras ou nuvens densas de coisa nenhuma. sinto-me como se iluminada pelo luar de uma vida nova...

está na hora de voar...

ou, mais propriamente, de pedalar. porque, aqui, a aselha, chumbou no exame de condução e de casa ao trabalho, não se justifica ir de avião ;)